PEDIATRIA: O impacto da Covid-19 nas crianças e adolescentes

PEDIATRIA: O impacto da Covid-19 nas crianças e adolescentes

PEDIATRIA: O impacto da Covid-19 nas crianças e adolescentes

A pandemia de COVID-19 tem tido efeitos na sociedade a vários níveis, sendo as crianças e os adolescentes um grupo particularmente vulnerável. Embora em idade pediátrica, a infeção pelo vírus tenha um cenário clínico mais ligeiro e com melhor prognóstico relativamente aos adultos, o isolamento social e as alterações no quotidiano têm efeitos colaterais com elevado impacto nas camadas mais jovens.
Alexandra Luz, pediatra na Clínica Polidiagnóstico de Leiria, realça que a Covid-19 terá “uma marca profunda na faixa etária da pediatria, desde o bebé até ao jovem adulto, passando pela criança e adolescente”. E identifica vários perigos para estas novas gerações.
 
Partilhamos o artigo completo da nossa especialista em Pediatria:
 
São inegáveis as transformações profundas de toda uma sociedade, causadas por uma época marcada por uma pandemia. Ab initio, a origem da palavra pandemia – palavra derivada do grego pandemía, “o povo inteiro”. E assim é, o surto de uma doença com distribuição geográfica internacional, muito alargada e simultânea. Será a exceção das exceções quem sobreviveu a duas grandes pandemias, sendo a atual a COVID-19, e talvez a mais equiparada em termos de impacto até esta data a denominada “gripe espanhola”, em que entre 1918 e 1920 o vírus influenza vitimou cerca de 500 milhões de pessoas, o que à altura correspondia a um quarto da população mundial. 
 
Em novembro de 2019, quando foi diagnosticado o primeiro caso de infeção a COVID-19 na província chinesa de Hubei, em Wuhan, estaríamos todos longe de imaginar o impacto que este vírus iria causar em todo o mundo. A maioria de nós nunca experienciou uma tal época de verdadeira “crise”, ainda mais uma crise de saúde. Existem os mais variados tipos de crises, de origem natural ou secundárias a intervenção humana, sociais, económicas ou de saúde, à escala regional, nacional ou mundial, evitáveis ou inevitáveis. Cada uma deixa, à sua maneira, a sua marca, mais ou menos profunda. 
 
E o COVID-19 foi tudo isso mesmo. Tudo isso e ainda mais, uma verdadeira ameaça à nossa sobrevivência enquanto espécie, um “ataque” brutal e sem precedentes às necessidades básicas do indivíduo. Fechou-nos nas nossas casas. Limitou a nossa liberdade. Afastou-nos de amigos, da família, de toda a estrutura social e comunitária de suporte. Obrigou-nos a repensar e a readaptar toda a nossa forma de interação social e da própria estrutura e papéis desempenhados pelos elementos de uma família, pais, filhos, avós, tios, primos. E necessariamente terá que deixar a sua marca, independentemente do curso que ainda venha a tomar, e atrevo-me a dizer que penso que esta marca será ainda mais profunda na faixa etária da pediatria, desde o bebé até ao jovem adulto, passando pela criança e adolescente. Isto porque pelas suas próprias características neuropsicológicas, o cérebro da criança é de uma fantástica plasticidade, pela permeabilidade e aceitação de uma fantasia do presente como a realidade de um futuro, enquanto o adulto permanece “preso” a um passado. Assim, o mais provável de acontecer a esta futura geração de adultos será o aprender naturalmente a ser feliz ao encarar os olhos como única expressão facial, as tecnologias de comunicação como as principais formas de interação social, e ao invés o adulto verá com tristeza a perda do sorriso como a expressão da felicidade, e a perda do abraço, do beijo e do simples toque como interação social. 
 
E isso leva-nos aos potenciais problemas que o pediatra, e neste caso esta pediatra em particular, reconhece para a criança e adolescente que estão a aprender a conviver em sociedade numa época marcada por sucessivos confinamentos. À cabeça, o risco aumentado de patologias orgânicas como a obesidade, e nesta sequência todas as suas complicações dela decorrentes como a hipertensão, diabetes mellitus, dislipidemia, doença cerebrovascular e cardiovascular em idades cada vez mais precoces. O acesso fácil e permanente à alimentação quando em confinamento, aliado ao efeito de prazer imediato por vezes associado à ingestão destes mesmos alimentos, e ainda ao sedentarismo que a permanência em domicílio obriga, são questões quase inevitáveis na nossa população pediátrica, e ainda mais violentas nas camadas sociais com menos recursos, às quais faltam frequentemente o poder económico e os recursos em termos formativos e de literacia em saúde para a opção por uma alimentação saudável, o beneficiar de atividades físicas programadas, e no que é ainda mais simples, de uma casa com mais metros quadrados e espaço ao ar livre disponível. 
 
Em termos de factos e evidência científica, um estudo levado a cabo pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que abrangeu uma amostra de cerca de 650 famílias, e que teve como objetivo avaliar a prevalência do excesso de peso e obesidade parental antes e durante o período de confinamento iniciado em março de 2020 e perceção parental do aumento de peso infantil, verificou que para além de cerca de 35% dos inquiridos ter tido a perceção de que o peso da criança tinha aumentado durante o período de confinamento, o mais preocupante foi que mais de metade (61,1%) não demonstrou qualquer preocupação com o aumento ponderal neste período das suas crianças, ou seja, não identificou este facto como um potencial problema em termos de saúde infantil1. É ainda significativo que no estudo REACT-COVID, conduzido pela Direção Geral da Saúde e que teve como objetivo conhecer os comportamentos alimentares e de atividade física em contexto de contenção social, 45% da população relatou ter alterado os seus hábitos alimentares, e cerca de 42% ter a perceção de que esta alteração foi para pior2. Uma das razões apontadas (em 18,6%) teria a ver com o ambiente de stresse vivido, o que não só tem impacto na população adulta, mas também se repercutirá necessariamente no agregado familiar em idade pediátrica. Se tivermos em conta que a Organização Mundial da Saúde estima que 20% das crianças e adolescentes têm, pelo menos, uma perturbação mental, e que entre nós, em Portugal, o projeto Mais Contigo, conduzido pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e que visa a prevenção de comportamentos suicidários em meio escolar, aponte para que entre 2019 e 2020 cerca de 31% dos jovens apresente sintomas depressivos, um contexto de confinamento social apenas poderá, por todas as suas inerências, levar a um isolamento social necessariamente agravante de uma já perigosa situação de base. 
 
Parece então tornar-se importante intervir nos vários domínios em que esta pandemia poderá ter um impacto verdadeiramente nefasto em termos de saúde física e mental da nossa população pediátrica, numa estratégia de abordagem global que tem que passar obrigatoriamente por fazer chegar a informação certa, de forma clara e concisa, aos nossos pais e cuidadores de crianças e adolescentes, por um lado, e aos próprios adolescentes, neste último caso responsabilizando-os progressivamente para a capacidade de decidir sobre a saúde do seu próprio ser. Há que investir em programas práticos e acessíveis de literacia em saúde, em formar profissionais de saúde especificamente para promover a interligação e comunicação direta com a comunidade, em aproveitar as novas tecnologias, votadas tão facilmente quanto automaticamente a uma condenação por vezes imerecida, no que têm de seu melhor ao funcionar como verdadeiras “armas” de aproximação a cada agregado familiar em particular. Há que colocar o travão pelas entidades competentes na difusão acelerada e facilitada à clara desinformação das “fake-news”, ao verdadeiro perigo para a saúde pública do empirismo e da pseudociência. Há que responsabilizar pais e cuidadores pelas decisões em saúde tomadas em relação aos seus filhos, não desresponsabilizando os organismos oficiais em saúde da obrigação de a eles chegar com a informação mais correta e atualizada em todos os domínios relevantes, independentemente da classe ou literacia. 
 
Termino sempre com a mensagem da esperança, do espírito crítico, e da curiosidade inata, que considero serem dos maiores motores do progresso da humanidade na busca da sua sustentabilidade e papel em sociedade. Investir em bons cuidados de saúde e na educação da população é uma aposta “viciada” logo à partida. Mas é “viciada” no sentido em que existe 100% de probabilidade de ser uma aposta ganha, para quem consegue ter a visão de perceber que as boas mudanças implementadas “hoje” (mesmo cujo motor para a mudança seja uma pandemia que certamente atingiu a todos, de uma ou de outra forma) serão os ganhos que nos permitirão sonhar com a possibilidade de ter um “amanhã”. 
 
 
Fontes: 
1-Excesso de peso e obesidade parental e perceção do aumento de peso infantil, durante o confinamento em contexto da pandemia da COVID-19, em Portugal: Programa MUN-SI Cascais 2019/2020 
2-React-Covid - Inquérito sobre alimentação e atividade física em contexto de contenção social. DGS 2020
 
Texto escrito por: Dra. Alexandra Luz | Pediatra nas Clínicas Polidiagnóstico
 
Marcações de consultas de Pediatria:
Polidiagnóstico Leiria- t: 244 811 800 | leiria@polidagnostico.pt
Polidiagnóstico Marinha Grande- t: 244 504 200 | marinha@polidagnostico.pt
 
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